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Confusões no Colegial – Capítulo 12 – A Noite da Mascote – Parte 1

A porta do quarto é aberta lentamente para não fazer barulho. Um garoto baixinho entra e com passinhos de algodão aproxima-se cautelosamente com um lençol amarrado ao pescoço e sua camiseta do super-homem. Ele posiciona-se na parte inferior da cama e observa Tatiane dormindo tranquilamente com seu pijama cor de rosa. O ambiente está quase claro, o sol começara a nascer anunciando a nova manhã de segunda-feira.

Prendendo um sorriso levado, o pirralho sobe no colchão, posiciona-se e após alguns instantes, “vup”, pula sobre a irmã que reage apenas com um gemido. Tatiane estava acostumada a ser acordada pelo pedacinho de gente, ou melhor, pelo irmãozinho caçula que neste instante já estava gritando e bagunçando os cabelos dela:

– Acorda Tati, acorda. É hora de ir pra escola.

A garota permanece deitada com o rosto afundado no travesseiro e o pestinha sentado sobre ela como se fosse um cavalinho. A única resposta que a garota dava eram gemidos de preguiça, parecendo um morto vivo.

Ele sai de cima e sentado ao lado tenta puxar as cobertas e fazer a garota levantar. Só então o celular abaixo do travesseiro vibra e a musiquinha irritante do alarme começa a berrar: “good morning!… good morning!… pá pá pá pá… pá pá… pá pá… good morning…”. Tatiane pega o aparelho, olha as horas (06:30hs), boceja e vira-se para o lado onde enxerga apenas o vulto gordinho.

– Eu pensei que você tivesse morrido – o garotinho fala com sua voz infantil.

– Mas eu morri – Tatiane levanta-se com cara de malvada – e agora sou um morto vivo que veio comer você gordinho – ela faz voz de monstro e pula sobre o irmão, dando-lhe várias mordiscadas na barriga, ele ri e grita para que a garota pare e se arrume logo.

Tatiane deixa o menino que volta para a cozinha onde a mãe prepara o café da manhã. Logo após tomar banho, ajeita os materiais escolares e segue para o lanche. Minutos depois ela e o irmão saem de casa a pé, o deixaria na creche e seguiria para o colégio.

* * *

– Oi meu bem! – Caroline encontra Crícia frente aos armários. O colégio estava movimentado e a energia dos adolescentes balançava o prédio.

– Oi gata, como foi o fim de semana? – Crícia procura suas chaves na bolsa enquanto olha para a amiga.

– Normal. Tive que dar faxina na casa. Estou com as mãos doendo até agora. Sinceramente, não sei por que minha mãe não pode chamar uma diarista. – Ela puxa a porta do armário, mas parecia estar emperrada.

– Bom dia amor – Kaio chega por detrás e abraça Crícia que já estava guardando a bolsa e pegando alguns livros. Ela vira-se e dão um selinho. Neste instante Tatiane surge no fim do corredor.

– Qual o problema Caroline? – Kaio observa que a garota está com dificuldades, então sem que solicite ajuda, segura a porta e com um pouco de força consegue desemperrá-la.

Tatiane passa pelo trio. Caroline e Kaio a observam enquanto a garota segue para a sala.

– Garota sonsa – Caroline deixa a frase de desafeto escapar.

– Ei Carol. Não fale assim, ela é super gente boa – Kaio rebate a frase da garota.

– Gente boa o caramba – Ela abre a porta e observa suas roupas da educação física cair emboladas a um objeto colorido de plástico.

– Nossa. Este uniforme está ai desde sexta-feira? – Em um reflexo Crícia abaixa-se para apanhar as roupas, só que ao puxar deixa o objeto descoberto à vista de todos: uma máscara de palhaço. Ao ver o que fizera, gela.

– O que é isso? – Kaio abaixa-se e pega o adereço.

– Nada! – Caroline toma a máscara e guarda rapidamente no armário – Usamos sexta na aula de teatro – finge que o objeto serviu para aquela finalidade, mas Kaio não presta muita atenção observando Derick e Lizi surgir no início do corredor. Ele dá um selinho em Crícia e segue em direção aos colegas.

– Oi Lizi – cumprimenta-a e em seguida olha para Derick – Posso levar um particular com você? – Derick olha para Lizi procurando uma forma de fugir, mas a garota não percebe e diz:

– Vai lá. Eu levo seus materiais – pega a mochila e em seguida retira-se. Derick fica parado observando a amiga passar cumprimentando Crícia e correr para abraçar outra colega.

– Você está legal? – Kaio pergunta.

– Podemos adiar essa conversa? – Derick responde grosseiramente. Estava nervoso.

Kaio não entendeu o que deu no garoto. Foi estranha a reação, afinal, achava que se dava bem com ele. Derick percebendo seu tom de “Ai meu Deus, estou apaixonado por você e não quero que saiba”, abriu um sorriso e corrigiu a frase.

– Quer dizer, estou bem e você? – gagueja.

– Legal. Tipo, queria um conselho – Kaio diz olhando para o chão.

Um conselho? Derick ficou indagado. Por que de mim? Pensou.

– Sem problemas. Pode falar – Os dois caminham para fora do prédio, rumo aos pinheiros que ficam perto do estacionamento.

– Ninguém pode saber sobre essa conversa, okay? – Kaio continua.

Oh-My-God, Será que é o que estou pensando?

Derick reflete rapidamente, abre um sorriso e prossegue:

– Sou um túmulo – Eles sentam-se abaixo das árvores.

Kaio olha para os olhos do garoto e então manda o questionamento:

– Você já namorou?

A pergunta pega Derick de surpresa e ele fica corado.

– Se eu já namorei? – faz rodeios – Tipo, namorar de namorar não – sorri sem graça.

– Assim, de uns meses para cá estou com um problemão – Kaio pega algumas pedrinhas e fica jogando próximo aos pneus de um carro.

– Como assim um problemão? – Derick começa a ficar nervoso. Seria agora que Kaio revelaria que estava… aff… é melhor não criar fantasias. Cabeça no lugar Derick, cabeça no lugar.

– Um problemão do tipo, grande – Kaio coça a região genital, o que faz Derick criar mil fantasias desviando o olhar. Desde que transara com Lucas, gestos normais como aquele deixaram de passar despercebidos. Encabulado prossegue:

– Você precisa ser mais direto. Não estou conseguindo entender – Dá uma mordidinha nos lábios enquanto observa a boca do rapaz que permanece jogando pedrinhas próximas ao carro. Kaio tinha um ar de garoto inocente.

– Como posso ser mais direto? Vejamos. Estou namorando a Crícia, mas, depois que vi uma pessoa ai não consigo parar de pensar nela.

Aquilo estava realmente acontecendo? Kaio estava declarando que estava a fim de outra pessoa? Não, Não… Espera ai garoto, cabeça no lugar, ele disse que não consegue parar de pensar, porém não mencionou nomes. Derick espanta os pensamentos e prossegue:

– Ah cara. Deve ser normal. Você é homem e tal… (como se Derick entendesse do assunto).

– Mas o problema não é que seja uma atração física, estou realmente muito a fim desta pessoa. Tanto que não consigo parar de olhar para ela – Ele interrompe o jogar de pedras e olha diretamente para Derick, que quase se engasga com a própria respiração. O sinal toca anunciando o início das aulas, oportunidade perfeita para escapar e colocar as ideias no lugar. “Abençoado seja o sino”.

– É melhor irmos – Derick levanta-se e sacode o pó do bumbum – A primeira aula de hoje é literatura e a dona Eliane não anda de muitos amigos – completa.

− Okay então. Depois conversamos melhor.

Kaio também se levanta. Ele ajeita a calça e mais uma vez, na maior naturalidade, torna a coça a região genital. Derick finge não ter prestado atenção, mas a atitude do colega permaneceria em sua mente a aula inteira.

* * *

– Derick, combinamos de se encontrar lá pelas seis horas. Tudo bem para você? – Tatiane fala com o amigo que rabiscava algo no caderno. Os pensamentos bem distantes.

Ei… Terra chamando Derick. – Lizi dá um cutucão no rapaz.

Oi? – Ele ergue os olhos meio desorientado – O que foi?

– Acorda garoto, você não dormiu estes dias que ficou em casa não? – Tatiane chama a atenção – Estamos combinando de onde se encontrar hoje à noite.

– Porque hoje à noite? O que têm? – Derick olha para trás e observa Kaio conversando com os amigos, repara também que no lugar de Lucas mais uma vez estão apenas os livros.

– Alooou! Seu cérebro realmente saiu pelo nariz? – Tatiane arruma os óculos – Presta atenção: Mascote, time de futebol. Isto quer dizer alguma coisa? – Ela tenta fazer o rapaz se lembrar.

– Poxa, tinha me esquecido. É hoje que vão apresentar a tal mascote? – permanecia dessituado – Na minha antiga escola não tinha isso – frisa.

– Pois é. Então dá para você vir lá pelas seis horas? – Lizi pergunta.

– De boa, dá sim – Ele responde.

Então, olhando para o caderno do amigo, Lizi exclama surpresa ao ver o desenho que rabiscava já há algum tempo. Um rapaz de olhos azuis com os braços expostos pela camiseta regata do Guns N´ Roses. Derick traçava a silhueta enquanto lembrava-se da noite que tivera com Lucas, e também da conversa mais cedo com Kaio. Seus pensamentos estavam tão distantes que não analisou a possibilidade de alguém ver.

Quem é? – Tatiane perguntou curiosa, e ele a interrompeu para compartilhar o ocorrido:

– Meninas – Com um único movimento, Derick fechou o caderno findando a visão da imagem – preciso contar uma coisa – Elas chegaram para mais perto, e aos cochichos, aproveitaram a bagunça da sala para fofocar.

– Quarta-feira, depois que saímos do pub – ele hesita por um instante – Bem, eu… eu… – aquilo era um tanto constrangedor, porém, já havia começado − eu perdi a virgindade – reduz a altura da voz, com medo de mais alguém ouvir.

– Como é? – Tatiane expressa colocando a mão na boca, surpresa.

– Isto que eu falei – e volta a sussurrar – eu transei com o Lucas.

– CARAMBA – Tatiane praticamente berra – MAS E A NAMORADA DELE?! – ergue-se embasbacada.

Fala baixo sua bocuda – Derick lhe dá um beliscão e vira-se para ver se alguém ouviu, porém, todos estavam mais preocupados com seus próprios grupinhos.

Foi mau – ela recompõe-se apalpando o local onde ele apertou – Só espero que isto não dê confusão – completa olhando para trás.

O sinal do intervalo soou, o trio levanta-se e juntamente com o restante dos alunos espremem-se na saída para o corredor. Logo atrás vem Kaio. Com a cara fechada ele passa pelo garoto e dá um esbarrão quase o jogando contra a parede. Sem ao menos se desculpar, segue seu caminho com a cara amarrada, até sumir logo à frente.

Derick leva a mão ao ombro e o massageia. Jogadores de futebol esbarram com muita força, pensou preocupado.

* * *

Quando o sinal soou novamente, o intervalo chegara ao fim. Derick aproveitou o momento para seguir até o banheiro. Ele entrou em um dos reservados e após sair dirigiu-se a pia. Enquanto passava água no rosto e ajeitava os cabelos, percebeu pelo espelho que Kaio aproximava-se em sua direção. Virou e antes que dissesse qualquer coisa sentiu a pressão dele sobre os braços, seguido de uma chacoalhada.

– Porra. Você está pior que mulherzinha. Pedi para guardar segredo e contou tudo para as meninas – Kaio o imprensava contra a pia.

Aquilo era excitante. No banheiro, imprensado por um cara super gostoso, fazendo a linha estressadinho e tudo por que… era fofoqueiro?!

Epa! Como assim?

Derick ficara indignado, reunindo forças deu um empurrão afastando Kaio de si.

– Você está louco? Como assim contei seu segredo?

– Agora vai negar? – Kaio o encarava nos olhos – E quanto a Tatiane gritando para sala toda ouvir: “e a namorada dele?” (imita fazendo voz de menininha).

Derick confere se os braços ficaram marcados enquanto ouve o rapaz arrotar ignorância. Só então a ficha cai e ele sem temer o perigo resolve flertar um pouquinho.

– Espere ai. A sala inteira fazendo bagunça e você me observando? (traduzindo: assume logo que está a fim de mim).

– Como é? – Kaio dá um sorrisinho irônico, mas sem compreender continua – Quer saber, não foge do assunto. Você contou ou não para elas? – Ele aproxima-se e Derick fica todo arrepiado.

Neste momento alguns garotos entram no banheiro, e fazendo algazarra, seguem para o mictório. Eles disfarçam a discussão, afinal, podia soar estranho.

Só para você saber – Derick fala aos cochichos – Não falávamos sobre você, até porque, não perdemos nosso tempo com coisas escrotas. – esnoba e sai irritado.

 

Ele voltou para sala. A professora de inglês passava nova matéria no quadro-negro. Sentou-se, abriu o caderno e começou a copiar, sentindo o sangue ferver. Instantes após Kaio entra e Tatiane o acompanha com os olhos.

– Cuidado para não babar – Derick fala sem pensar e a amiga vira-se de uma vez,

– O que você falou?

Derick estava estressado e sem pensar continuou com grosseria:

– Isso mesmo que você ouviu – lia algo no quadro e transcrevia para o caderno, sem dar-lhe atenção.

– Você é um babaca garoto – Tatiane levanta-se e com os olhinhos lacrimejando pede licença para sair.

Ei. O que deu em você? – Lizi se aproxima aos cochichos.

– Não é da sua conta – Derick deixa claro que não estava para conversas e continua a copiar a matéria. Ela engole em seco, então prossegue:

– Acho que você a magoou – e virando-se para frente, ouve a professora chamar-lhes a atenção. Pelo visto, a noite da mascote iria pegar fogo.

Notas Finais

CONFUSÕES NO COLEGIAL é uma publicação independente disponível em versão digital no site da amazon.com.br e em versão impressa pelo clube de autores. Se puder, ajude ao escritor, adquira seu exemplar. Leia a história completa pelo celular, tablet, computador ou Kindle (versão e-book). Incentive este trabalho, apoie a literatura nacional.

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2 comments

  1. Aí eu estou morrendo de ansiedade pra lé o capítulo 13

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